Cronista, Eu?

Poetas, contistas e romancistas famosos que também se dedicaram à crônica

Cecília Meireles

 O que se diz e o que se entende

Como alguns outros poetas brasileiros – entre os quais se destacam Drummond, Bandeira, Mário Quintana – Cecília Meireles não limitou seu trato com a palavra à construção de versos. Autora de livros infantis, de artigos até hoje importantes sobre educação, Cecília dedicou-se com igual entusiasmo à crônica. Sua produção, nesse setor, é quase tão extensa quanto a poética, e não se limitava a jornal: divulgava-a também pelo rádio.     
Ora, se ainda se precisa de uma “prova” a respeito do “senso de participação” de Cecília (há quem considere sua poesia excessivamente inefável, desligada da realidade, fora a “exceção honrosa” de O Romanceiro da Inconfidência), sua atividade de cronista é mais do que suficiente para destruir qualquer dúvida.
O que se Diz e o que se Entende reúne, nesse aspecto, a prosa mais incisiva de Cecília. Aquilo que em sua poesia assume, em geral e de modo inevitável, um sentido implícito, aqui se desdobra em testemunho da artista comprometida com todas as dimensões da vida que a cerca: a social, a política, a cultural e, quase profeticamente, a ecológica. Textos sobre a destruição da natureza nas grandes cidades em função de um falso desenvolvimento urbano, ou sobre a drástica redução da linguagem na fala cotidiana sob pretexto de melhor “se comunicar”, adquirem, sem abrir mão da elegância e da delicadeza típicas de seu estilo, força de manifesto.
Assim também, a nostalgia, certo saudosismo, não de todo isentos de amargura e desconsolo, funcionam como elementos de crítica de situações de injustiça e opressão, tanto no plano individual quanto no social, mas não se fechando na contemplação de um passado reduzido à sua inútil memória. Pelo contrário, a “recordação” é, paradoxalmente, utópica. Serve como parâmetro para o que as pessoas deveriam ser.aqui e agora, caso se quisessem de fato felizes e equânimes consigo e com os outros.
Por outro lado, fica mais uma vez claro que a consciência social de qualquer artista não depende da sua ideologia, das suas crenças, das suas posições. Esta consciência se concretiza na linguagem que ele constrói. No caso do escritor, isso se traduz no modo como ele tenta desvendar, pela palavra, os mecanismos, íntimos ou coletivos, que desfiguram o homem em sua liberdade. Ora denunciando, ora celebrando; agora em júbilo, imediatamente depois atingindo as fronteiras de uma solitária desesperança, esses textos de Cecília estão entre os melhores momentos de sua criação e de nossa literatura.

Cecília Meireles. O que se diz, o que se entende. Crônicas. Ed. Nova Fronteira, 1980. (Orelha do livro)

Leia no blog as seguintes crônicas de Cecília Meireles:
Festa
Dias Perfeitos
A arte de não fazer nada

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira