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Conto, história, crônica em Fernando Sabino

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Com a designação um tanto circunstancial de conto quando na terceira pessoa, história quando experiência pessoal e crônica quando em tom reflexivo, pode-se dizer que na verdade se trata de um gênero literário próprio, peculiar a Fernando Sabino: um relato curto de fatos colhidos da realidade, com tratamento de ficção, em linguagem nítida, sem os ornatos da retórica tradicional, mas de técnica apurada e respeito aos requisitos da clareza, concisão e simplicidade. São episódios, incidentes, reminiscências, reflexões, encontros e desencontros por ele vividos na sua “aventura do cotidiano”, apresentados com rica inventiva, como se o próprio leitor participasse —, nisso residindo o seu maior fascínio. Sob a aparente singeleza, transparecem a sensibilidade, o humor, a ironia, às vezes o espírito satírico — mas sobretudo a solidária simpatia com que o autor surpreende o que há de belo, delicado ou hilariante na natureza humana.

(Texto exibido na contracapa de “Os melhores contos de Fernando S…

Anseios crípticos

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Tarlei Martins
[Porque hoje é dia dele, sua majestade, o Livro]
Acredito que somos todos especialistas em leitura. No entanto, há um mundo de textos escritos em linguagem críptica que mal soletro. Eu não consigo ler o que as células estão escrevendo no secreto de mim.
Eu não consigo ler o que as galáxias estão escrevendo nas espirais de si mesmas.
Eu não consigo ler o que está escrito no meu inconsciente – e que me comanda.
Eu não consigo ler o que está escrito nas estrelas.
Eu não consigo ler o recado dos sonhos.
Eu não consigo ler a lógica das emoções.
Eu não consigo ler o sentimento de uma árvore.
Eu não consigo ler o pensamento de uma mesa.
Eu não consigo ler o alfabeto da matéria.
Eu não consigo ler o código da vida.
Eu não consigo ler a órbita dos planetas.
Eu não consigo ler a mecânica celeste.
Eu não consigo ler a física quântica.
Eu não consigo ler a origem do universo.
Eu não consigo ler a origem das espécies.
Eu não consigo ler o avesso das palavras.
Eu não consigo ler o percurso dos vent…

Vamos brindar

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Luci Afonso
Ela passa o café, põe na xícara e vai até a janela rústica da cozinha, que dá vista para o quintal. Veste uma blusa branca de algodão e soltou o cabelo. Acabou de escrever um poema. Observa, ao longo do córrego que atravessa a fazenda, os galhos das árvores balançando quase em câmera lenta. Não há dúvida em seu coração.  
A notícia chega pelas redes sociais. Só pode ser engano: após lutar quarenta dias na UTI devido a um infarto, morreu a jovem poeta de fala mansa, voz de veludo, sorriso constante. Em seguida, o filho, que não suportou viver sem a mãe, se matou e foi sepultado junto dela.  Meio distraída, meio maluca, como são os poetas, quando apresentava um sarau, não tinha hora para começar, não seguia nenhuma ordem aparente e terminava sempre em forró. Gostava tanto de falar em público que às vezes era preciso interrompê-la para que outros tivessem vez. Amava as pessoas humildes, de pouca instrução, pois muitas delas nunca haviam tocado num livro. Explicava-lhes, com pac…